fundospcincipal.png
 
 
fundo7.jpg

O terceiro álbum do cantor e compositor paraense Saulo Duarte e sua banda, “Cine Ruptura” (YB Editora/Natura Musical), chega a público dia 29 de junho para audição no Deezer e dia 6 de julho para download e streaming no www.naturamusical.com.br.

O projeto de gravação do disco foi contemplado pelo Edital Natura Musical Pará, com apoio da Lei Semear, e conta também com shows de lançamento e um workshop de produção musical em Belém ministrado por Curumin. O Natura Musical foi criado para valorizar a música brasileira em diferentes estágios, fomentando a renovação da produção e apoiando iniciativas de preservação de nosso legado musical. O edital Pará, que existe há quatro anos, vem lançando inúmeros trabalhos da efervescente cena paraense, como Felipe Cordeiro, Lia Sophia, Natália Matos, Juliana Sinimbu e agora participa do lançamento do terceiro disco de Saulo Duarte e a Unidade, diz Fernanda Paiva, gerente de Marketing Institucional da Natura. Saulo Duarte, que vem se destacando na cena musical independente, promove nesse disco uma fusão sonora que rompe barreiras geográficas. “Belém está presente, mas é outra. Não é aquela do turista, mas a do cidadão comum que vive a cidade também em seus dias mais cinzentos. Tanto que a capital que surge nas letras pode também ser São Paulo, Fortaleza, Porto Alegre, Rio ou qualquer outro canto urbano do país”, comenta o jornalista e produtor musical Marcus Preto em texto reproduzido na íntegra abaixo:

“O roteiro amarrado por Saulo Duarte e a Unidade em “Cine Ruptura”, terceiro álbum do cantor e compositor paraense e sua banda, se desenrola em um país em completa transformação. Poderia ser Eldorado, pátria alegórica erguida por Glauber Rocha em “Terra em Transe”. Mas a terra que ele canta se parece mais com uma versão real e atualizada da obra-prima do cineasta baiano. O Brasil de 2016, por exemplo. Nessa nação, construções e ruínas são quase a mesma coisa e uma rouba a paisagem da outra em movimento perpétuo de destruição e recriação. A crise instalada quer quebrar tudo, mas também está guardada nela a melhor possibilidade de um futuro mais equilibrado e justo. Ideologias são questionadas pela primeira vez com tanto interesse popular. O pobre, o rico e o remediado têm de aprender a conviver na marra.

E também o preto, o amarelo e o arco-íris; o macho, a menina e a igreja; o rock n’roll, a Jamaica e o som ambiente que sai das caixas do Mercado Ver-o- Peso. Todos precisam ter garantido o direito de tomar sua cerveja, de fumar o seu cigarro, de fazer sua cabeça. “Sem receio e sem receita”, como diz a letra de “Quem quer que seja”, (Daniel Medina/ Igor Caracas), a contundente faixa que abre o disco.

Saulo Duarte nasceu em Belém há 27 anos. Viveu na capital paraense até a adolescência e, de lá, partiu com a família para Fortaleza, onde tornou ainda mais complexa sua formação musical, colecionando na memória afetiva um catálogo sortido de estilos e estéticas. Isso só fez crescer em São Paulo, capital da diversidade por excelência, para onde o artista se mudou em 2008. Nessa cidade, montou com a banda seus três álbuns autorais, os ótimos “Saulo Duarte e a Unidade” (2012), “Quente” (2014) e este “Cine Ruptura” (2016/YB Music), que é lançado agora com o patrocínio do Natura Musical. Se os dois primeiros os aproximavam mais das raízes – sobretudo as paraenses – e expunham uma visão a respeito de estéticas já existentes, “Cine Ruptura” marca o encontro de Saulo Duarte e a Unidade com sua identidade musical mais profunda. Vai além dos reflexos do que os compositores ouviram desde a infância no rádio de casa. Eles encontraram, isso sim, um lugar original na música contemporânea.

Muito menos ensolarado do que os dois álbuns anteriores, “Cine Ruptura” parece focalizar o outro lado da mesma história, escapando do espírito leve que permeou o som da banda até aqui. Belém está presente, mas é outra. Não é aquela do turista, mas a do cidadão comum que vive a cidade também em seus dias mais cinzentos. Tanto que a capital que surge nas letras pode também ser São Paulo, Fortaleza, Porto Alegre, Rio ou qualquer outro canto urbano do país. Mas a batalha diária na terra de “Cine Ruptura” nunca é solitária, o que a torna mais amena. “Não estou sozinho/ Eu tenho os meus amigos/ Posso me libertar/ Contando para eles o que eu sinto/ Dos conceitos que eu penso/ De todas as amarras que eu tenho”, diz a letra de “Meu Sangue” (Saulo Duarte/ Beto Gibbs/ João Leão). Já em “Uma Música” (Saulo Duarte), um dos momentos mais pungentes de reflexão contidos no álbum, “cantar tem gosto vivo e é o contrário de morrer” e a comunicação nem sempre é tão tranquila. “Às vezes é difícil falar, às vezes é difícil pensar na agonia/ Do dia a dia/ E todas essas coisas que não param de crescer/ E o coração desnorteado, cansado, não entende tanta covardia/ E é tanta coisa oculta, tanta vida morta/ Tanta gente boa que a gente nunca mais vai ver”, doem os versos da canção, delicadamente costurados com o piano do maestro Laércio de Freitas.

Cantar também é a chave para o alívio em “Na Terra Vermelha” (Saulo Duarte/ Curumin/ Russo Passapusso), que tem participação vocal de Russo Passapusso, da banda Baiana System. Nela, o canto é redenção, “samba do terreiro, é libertação”. Além de Russo e Laércio de Freitas, que também toca piano elétrico e sintetizadores em “Meu Sangue”, o disco traz a participação de Ava Rocha em “Angorá”. Saulo Duarte partiu dos versos imagéticos do poeta paulista Giovani Baffo para criar essa canção, a menos direta do álbum, prato cheio para a voz tão particular da talentosa filha de Glauber.

E o filme não se perde nunca do fio de esperança que faz a vida e o combate continuarem fazendo sentido. E recria a clássica imagem das flores vencendo armas de fogo e servindo de fonte de energia aos guerrilheiros. “Essa Força” (Saulo Duarte/ Igor Caracas/ Curumin/ Beto Gibbs/ Klaus Sena/ João Leão/ Betão Aguiar/ Tulio Bias) tem esse viés, falando em “tantas flores que ainda virão, tão poderosas flores”, e depois: “Velha fonte, nova era/ Olho d’água do infinito/ Cada gota de transformação/ Não é só uma gota”. Única regravação do álbum, “Arrebol” é um clássico obscuro de Dominguinhos e Anastácia (a mesma dupla de “Eu Só Quero um Xodó”) e completa esse roteiro seguindo na expectativa de um final florido: “Que surpresa alegre/ Bem vinda amada/ Chegue-se a mim/ Cravos e açucena/ Plantei par você/ Em nosso jardim”.

“Vamos pro lado de lá/ Onde se esquece/ Do tempo girando/ Do mundo passando/ Da morte, do medo desse lugar.” Se os versos de “Bamba” (Saulo Duarte/ Alex Tea) esboçam uma tentativa de fuga da realidade hostil, “Claridade” (Saulo Duarte) encerra o disco apontando para o sol que se abre: “A noite vai ser mais tranquila e o sonho vai ter sabor diferente/ E você vai ver que não dá pra fugir do que já se é e de quem se gosta”. Saulo Duarte e a Unidade optaram por essa linguagem naturalista e sem interrupções: as nove canções que sustentam o roteiro de “Cine Ruptura” surgem amarradinhas, sem respiro entre uma e outra. Bem como os três interlúdios que as separam e determinam o início, o meio e o fim da trama. Três momentos de ruptura, portanto. Complementares, as vinhetas “Arraial” e “Pavulagem” se referem ao Arraial da Pavulagem, grupo que mantém viva a música tradicional paraense. É um outro olhar de Saulo Duarte e a Unidade para Belém. “Arraial” traz a tradição do samba de cacete, típico das regiões de Cametá e Bragança. “Pavulagem” faz releitura da música “Mandarins”, do próprio Arraial da Pavulagem, tratada aqui como um carimbó tradicional – aquele que era feito no Pará antes de os instrumentos elétricos serem assimilados pelos músicos do gênero.

Sob a produção musical do paulista Curumin, as gravações do disco aconteceram ao vivo no estúdio El Rocha (SP), com todos os músicos tocando juntos, como em planos-sequência. Fizeram no máximo três takes de cada canção – inteiros, sem edições ou remendos – e escolheram o melhor dentre eles para o disco. Depois, outras camadas de instrumentos (poucas) foram colocadas sobre essas bases. A mixagem ficou nas mãos do craque Victor Rice. O acaso foi valorizado, tanto quanto a quebra de continuidade e os cortes bruscos. Porque aqui valem as regras básicas do Cinema Novo brasileiro, compartilhadas do Nouvelle Vague francês e do Neorrealismo italiano. A ficção é tratada como se documentário fosse. E os papéis são vividos por quem sente na própria pele a realidade que quer descrever, não por atores contratados. A imagem que se vê na tela é a da crueza da rua, com suas belezas inesperadas e desconcertantes, nunca uma simulação fakeada em estúdio. A verdade é sempre mais bonita.”

Marcus Preto
Junho de 2016
fundo3.jpg

Notícias

fundo1.jpg
 

Discografia

Quente (2014)

 

Saulo Duarte e a Unidade (2012)